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domingo, 12 de dezembro de 2010

Enchente na baixada: evento natural, lógico e necessário.

Entra ano e sai ano, é a mesma coisa: enchentes no verão, as mesmas notícias, as mesmas imagens, as mesmas estórias, as mesmas reclamações, os mesmos prejuízos. Por que as pessoas ainda não perceberam o óbvio? O que queriam que acontecesse numa baixada impermeabilizada? Os especialistas dizem que são terrenos “argilosos”; ou "barrentos" - como diz o povão. A argila não permite que a água se infiltre. Isto é, se ela conseguir passar as barreiras de asfalto e cimento - igualmente impenetráveis - que cobrem a maioria das estradas, calçadas e residências das cidades em terras baixas!. Descobriram recentemente, um tipo de piso “poroso” - que poderia ajudar a drenar uma determinada região. Mas, e se só tiver barro por baixo? Vai dar no mesmo: a água vai continuar presa!.

Hominídeos primitivos, que habitavam próximo das águas, faziam a coisa certa: construíam suas casas em locais mais altos do que o nível do mar e das enchentes periódicas: eram as palafitas. Os engenheiros já existiam naquele tempo. Já sabiam que não teria nenhum sentido querer enfrentar um fenômeno milenar que faz parte dos sistemas de circulação da água - seja através de nuvens, de rios, do solo, de marés, de lençóis freáticos. Tudo bem, que o lixo contemporâneo pode atrapalhar, em alguns casos, e dificultar o “fluxo” - mas a maré precisa estar “baixa”! Caso contrário, com maré alta, não existirão valões ou canais concretados (na verdade são rios assassinados), que possam dar conta do recado. O Brasil possui experiência antiga nessa área e pode "exportar" o seu saber fazer. Os amazônidas e pantaneiros não brigam com as enchentes, eles "convivem" com ela. O piso da casa é móvel e o "caboclo" vai ajustando a altura, conforme sobe a água, até chegar perto do teto. Poderia ser um "conjunto flutuante" que subisse, em tubos fixos, tudo ao mesmo tempo, feito com fibra de bananeira, carbono ou algum material similar, vegetall ou não. Quantas fibras diferentes temos em nossas florestas esperando alguém para pesquisá-las? Estão testando agora novos materiais para serem usados na construção de aviões e proteção de cargas. É uma boa dica para quem quer inovar em opções de estruturas para edificações.

Será que vamos continuar a "desmanchar morros vermelhos" - e acelerar a velocidade dos ventos - para fabricar tijolos? Por que os "tijolos" ou placas não são padronizados e fabricados com material de reciclagem inerte e seguro? Fora isso, tem um segredo ecológico, ligado aos serviços ambientais: é que a água também precisa "parar" algum tempo nesses locais, para renovar os estoques de proteína viva.


Em todo Brasil, especialmente no litoral - existiam muitas lagoas e brejos que serviam como "berçários sazonais" - permitindo que uma parte da água transbordada - ficasse depositada. Uma outra parte, voltava para o mar, com "tranquilidade", ou para grandes rios. Não havia tanta erosão do solo, porque a vegetação ciliar (o nome ciliar, vem de cílios - que protegem os nossos olhos, assim como as florestas não deixam cair terra dentro deles: assoreamento).


Essa mata marginal serve como barreira de contenção natural. O mesmo acontece com os manguezais e suas tramas de raízes. Muitas espécies aquáticas precisam desses espaços "alagados" para "criarem seus filhos". É como se fossem creches, onde há um ambiente seguro para quem é tão pequeno ainda, e não está devidamente preparado para "viver a vida entre adultos". Quando vem nova cheia, os "adolescentes" já podem sair para enfrentar o mundo e novos adultos entram, outra vez, para "desovar" e "renovar" a criançada. É isso que garante boa parte dos peixes, crustáceos e moluscos que estão em sua mesa e nos melhores restaurantes do planeta. É claro, que com uma ajuda indispensável dos recifes de corais (infelizmente, boa parte deles, já ameaçada), das praias (onde vivem os muitos organismos que alimentam os grande peixes) e costões rochosos (idem). Mas o que fizemos no continente: aterramos tudo! Rua das Marrecas - no Rio de Janeiro: muitas marrecas mesmo (aos milhares). Fora outras espécies de outras ordens zoológicas! Quantas vidas vivem nessas depressões e vargens!

São áreas brejosas, úmidas, pântanosas, com charcos e turfas. O Campo de Santana, quem diria, também era uma área úmida. A Convenção de Ramsar - Convenção sobre Zonas Úmidas - Ramsar, Irâ, foi criado em 1971, para proteger esses ecossistemas tão importantes. Disponível em: http://www.ramsar.org/. O Brasil só ratificou a convenção em 1993 (?). Embora seja um dos países mais ricos em superfície com tais características, quando comparamos as áreas protegidas no Brasil com áreas úmidas de outros países, percebe-se que há muito por fazer ainda. Existem claros enormes sem qualquer amparo maior. Em vez de muitas marrecas e peixes, as últimas cheias e chuvas nos deixaram dívidas já acumuladas e há necessidade de contrair outras mais, para pagar novos móveis, sofás e colchões. Vamos gastar mais em remédios, aumentar as faltas ao trabalho, as interrupções das aulas, os gastos com a defesa civil, com indenizações, aluguel social, perdas de monumentos históricos.

É certo que precisamos fazer algo agora!. Mas ninguém pode viver eternamente em emergência e situação de calamidade pública! Qual a solução? Retirar todas as casas das áreas de risco e transferir as famílias para áreas seguras, que não “briguem com as marés” ou com os rios.


Precisamos respeitar - rigorosamente - as áreas de preservação permanentes (APPs) e as reservas legais, entre outras. Em alguns casos - mesmo distantes de áreas protegidas - vai ser preciso construir “palafitas” - quem sabe batizar como "parapredios” - verificando-se qual a altura adequada dos pilotis. Não é construir espigões! No máximo, dois ou tres andares, como já se faz nas "favelas". Mas, entre eles deveria existir uma rua de "árvores" frondosas, nativas, para sombrear e refrescar o entorno e não virar um forno crematório de blocos de concreto num país tropical! (Que absurdo!). Não vou falar nem das questões de aumento do nível dos mares. Se os parapredios resolvessem as questões regionais, já estaria de bom tamanho. E o que fazer nas áreas que vão ficar ociosas, por baixo das edificações sujeitas a alagamentos? Sugestões: podemos cultivar hortas de ciclos rápidos, orgânicas, plantar arbustos medicinais e incentivar a fitoterapia e a cosmetologia.

Quem sabe, criar peixes e anfíbios - oriundos da própria bacia hidrográfica? Incentivar atividades e práticas que não representem perdas consideráveis, em caso de alagamentos. Aprender a construir pequenos barcos, oficinas de artesanato, produção de embutidos defumados para uso familiar (que resistem bom tempo sem estragar e sem precisar de geladeira), compotas e geleias. As lajes podem ser aproveitadas para a instalação de aquecedores solares e placas para gerar energia e coletar água da chuva - pelo menos para manter uma família por algum tempo. Pesquisar métodos rápidos e baratos para filtragem e esterilização de água. É muito provável que já exista – em alguma universidade brasileira – uma área piloto para testar essas soluções em conjunto. Precisamos pensar sim em vias alternativas. Precisamos de um plano “B” !. Urgente! Construir cidades subterrâneas é muito caro, mas pode ser uma opção – ainda mais aqui no Brasil, onde não existem grandes abalos sísmicos. Por enquanto, podemos respeitar o traçado dos rios, acatando a legislação vigente, retirando as moradias de suas margens e restaurando a sua mata ciliar. Não permitir também as construções em áreas inclinadas (salvaguardar vidas), restaurar e preservar áreas de mananciais, manguezais e margens de lagoas (de interesse humano direto, para fauna aquática, plantas e demais organismos). Isso tudo tem um valor econômico e social, porque essas áreas produzem "peixe de graça" que alimenta quem nem sempre tem dinheiro para comprar um badejo ou uma garoupa. É economia que faz falta no bolso de quem não tem muito. É difícil perceber essa realidade numa Avenida Paulista (São Paulo) ou na Avenida Rio Branco (Rio de Janeiro). Mas o país é imenso!. O que ajuda a resolver - ao lado de outras medidas - é lambari mesmo, cará, traíra, barrigudinho. No, entanto, a produção marinha está comprometida. A captura mundial de pescado in situ está eliminando jovens peixes. Não está havendo reposição de adultos para as gerações futuras! O mercado das gastronomia com "frutos do mar" será seriamente afetado, em pouco tempo. Isso sem falar no "caldo plástico" que pode ser encontrado em diversos pontos de diferentes oceanos. Turistas não desejam ver tartarugas "entupidas" com sacos plásticos. Vai ser um horror! Se o turismo é um caminho, precisamos entender quem estará conosco nessa empreitada. São nossos "colaboradores" biológicos. Sem eles não haverá nada interessante para se ver ou para se comer: biodiversidade. Não temos a cultura milenar da Europa como diferencial. Mesmo que a piscicultura continental venha oferecer uma opção de reposição, as águas onde serão produzidos precisarão estar livres de agrotóxicos, fertilizantes excessivos das culturas, drogas químicas e antibióticos.


Custa caro retirar micropoluentes da água para dessedentação e outros usos mais nobres. Temos que investir muito na cultura do "peixe orgânico". Temos que zelar pela qualidade da água dos rios e dos mares onde eles se criam "naturalmente" (in situ), ou em cativeiro (ex situ). É um verdadeiro tesouro a ceu aberto!. É só ir buscar e ter algum esforço para localizar, coletar, conservar e trazer. Não é necessário desmatar. Fala-se em "boi verde" - que mesmo com todos os cuidados - causa desmatamento. Por que não falar no "peixe azul" ? Isto é, um peixe cuja coleta não "destrói" seus estoques genéticos e suas futuras gerações?. Por que o desenvolvimento sustentável só fala do que poderá acontecer com humanos? E o que será das plantas e dos animais, que nos alimentam e nos prestam uma infinidade de serviços? E o que dizer dos outros organismos? Por que as bactérias são tão odiadas? Como não reconhecer isso como um poderoso fator econômico indispensável a ser "tratado com seriedade" ? Sei que não são tarefas fáceis de serem "praticadas", e muitos motivos serão alegados.

Mas com certeza, cada dia que sustentarmos posições insustentáveis e adiarmos nossas decisões mais inteligentes, estaremos também acumulando mais prejuízos futuros. Alguém vai pagar essa conta lá na frente!. É o que está acontecendo agora, porque não fizemos o dever de casa no passado.! Estamos vendo as encostas serem tomadas por construções que são verdadeiras armadilhas de morte. A ocupação - mesmo ordenada – tem que ser devidamente mapeada, e não podemos aceitar situações de alto risco. A engenharia ambiental – como o próprio nome indica – deve respeitar as exigências “ambientais”; observar a natureza, seus movimentos e ciclos. Aprender com ela. Não significa deixar de enfrentar desafios de cálculos matemáticos em áreas mais complicadas. É questão de bom senso e reconhecimento de forças poderosas, que não são as econômicas. Enquanto isso, lá no norte do mundo, a água endurecida e os ventos causam prejuízos astronômicos. E nós aqui, vamos tentando aprender como lidar com a forma líquida, livre e solta, nos rios, nas baixadas, no litoral. O mesmo nível dos mares que nos traz tanta alegria – nas praias maravilhosas do país - pode também travar o retorno rápido dos rios para o mar. E nessas horas, morar numa palafita (parapredio) pode ser uma solução “troglodita”, mas altamente oportuna, ecologicamente correta, eficiente e eficaz. Rios e marés continuarão a subir e a descer. São fenômenos naturais e necessários ao equilíbrio de forças imensas, maiores do que a nossa criatividade eventual; e todo o nosso lastro de ouro, ou de qualquer papel moeda.