Pesquisar este blog

domingo, 21 de novembro de 2010

Anfíbios ameaçados, nós também

Roberto Rocha

Existem mais de seis mil espécies de anfíbios no mundo. Esses vertebrados são popularmente conhecidos como sapos, rãs, pererecas, salamandras e cecílias e somam mais de 800 espécies no Brasil. Algumas delas foram descobertas recentemente e muitas outras permanecem desconhecidas. Pelo fato de serem, muitas vezes rotulados de nojentos e pegajosos, boa parte da população ignora os benefícios que os anfíbios nos oferecem. Por exemplo, prestam serviços sanitários relevantes ao capturar insetos e outros invertebrados que podem atuar como vetores de dezenas de doenças que afetam seres humanos e outros animais. Teríamos muito mais pessoas internadas com doenças tropicais se os anfíbios não existissem.

Se considerarmos a quantidade de inseticidas que a espécie humana já produziu (e continua produzindo), contaminando os mais diversos ecossistemas da Terra, chegaremos a números astronômicos: por que não usar inseticidas naturais - e comprovadamente eficientes - para controlar os insetos adultos? Eles já existem e não precisam ser criados por biotecnologia. A natureza já pesquisou para nós! Sapos, rãs e pererecas são biocidas especializados. Eles matam os insetos para comê-los! Com uma grande vantagem: não contaminam o solo, as águas e nem os nossos alimentos. No entanto, devido ao fato de dependerem da boa qualidade das águas para suas posturas e desenvolvimento da fase larvar (girinos), os anuros podem ser afetados devido à poluição resultante de atividades humanas, as mais diversas.
Dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, 2008) mostram que mais da metade das espécies de anfíbios do mundo carecem de informações mais detalhadas quanto a sua biologia. (Disponível em: http://www.iucnredlist.org/amphibians/updates_2008. Acesso em: 26 set. 2009). A notícia é preocupante porque esses animais são também indicadores vivos da qualidade dos ecossistemas úmidos e florestas, ajudando a detectar poluentes nas bacias hidrográficas, muito antes que afetem os humanos. Dessa forma a extinção dos anfíbios representa a perda de um importante aliado na conservação de vidas humanas. Se eles estão ameaçados, nós também estamos. A Comissão de Sobrevivência de Espécies (SSC) da IUCN vem solicitando o empenho de todos os pesquisadores interessados nesse grupo para tentar reverter a crítica situação atual.

Muitas espécies estão sofrendo – na pele - os impactos da poluição industrial e perda de seus habitats. Algumas se distribuem em vastas áreas e estão protegidas em unidades de conservação (UCs), enquanto outras são muito raras e não estão em nenhuma área protegida, precisando de atenção urgente. Outras ainda só vivem em áreas específicas e em nenhuma outra mais. Esse fenômeno é conhecido como endemismo e cada caso precisa ser avaliado por especialistas nesse grupo zoológico. Se esses anfíbios desaparecerem perderemos também chances futuras de pesquisas importantes. Só este fato já seria um forte argumento para preservá-los. Esses recursos são nossos e existem em nosso próprio território.

ANURA

Entre os anfíbios brasileiros da ordem ANURA, as rãs são conhecidas pela elevado valor biológico de sua carne sendo comum a recomendação de sua ingestão para as pessoas debilitadas. A rã brasileira nativa mais caçada é a GIA ou RÃ-MANTEIGA (Leptodactylus ocellatus) (Foto por Cláudio Dias Timm), ainda encontrada em alguns brejos do interior, tendo quase que desaparecido da periferia das grandes cidades. Apesar de sua rica diversidade, o Brasil consome a RÃ-TOURO-GIGANTE (Lithobates catesbeianus) ou (Rana catesbeiana), uma espécie alienígena (americana do norte) criada em cativeiro e vendida congelada em supermercados mais sofisticados. A espécie tem sido encontrada também em vida livre no Brasil. Representa uma ameaça para outros anuros indígenas.



Já o sapo mais famoso do Brasil é o CURURU ou SAPO-BOI. Esse grande bufonídeo é conhecido cientificamente pelos sinônimos (Bufo marinus) ou (Chaunus marinus) ou (Rhinella marina) (Foto por Paulo S. Bernarde). Não é raro surpreendê-lo sob algum poste de luz forte, a espera de besouros e outros insetos, que ele come com avidez. Tem causado alguns transtornos como espécie invasora em outros países onde foi introduzido, por exemplo, na Austrália.



Entre os anfíbios menores destacam-se as pererecas, geralmente de cor esverdeada e hábitos arborícolas. No entanto, algumas espécies preferem o piso das florestas como é o caso de Adelphobates, um dendrobatídeo amazônico (Foto por Paulo S. Bernarde), cujas cores de advertência não estimulam a sua captura por predadores naturais.






URODELOS

Salamandras são espécies da ordem dos URODELOS (CAUDATA) com hábitos aquáticos ou terrestres. A espécie brasileira é terrestre, da família Plethodontidae.


Seus indivíduos respiram pela pele e não possuem pulmões. Não há forma larvar e os indivíduos desenvolvem-se a partir de “miniaturas” dos adultos. O gênero Bolitoglossa (Foto por Paulo S. Bernarde) está atualmente representado por uma única espécie amazônica no Brasil, mas é muito provável que novas descobertas venham aumentar esse número nos próximos anos.

GYMNOPHIONA


Cecílias são anfíbios da ordem GYMNOPHIONA de hábitos fossoriais, pouco conhecidos da ciência. Não possuem membros e, a primeira vista, parecem um grande verme (Foto por Paulo S. Bernarde). Alimentam-se de minhocas, cupins e larvas. Existem cecílias ovíparas cujas fêmeas cuidam dos ovos e outras são vivíparas. Vivemos a fase inicial de nossa vida dentro de uma bolsa líquida, como anfíbios dependentes da água. Somos um pouco parecidos com eles nesse aspecto e, se estão ameaçados, também nós devemos nos preocupar com o destino dessas incríveis criaturas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário